Mais um texto de duelo



O príncipe guiou o ataque cidade adentro. Estava na ponta da cavalaria com sua lâmina erguida alarando a cena como uma estrela escarlate. Os trotes, os urros, os gritos e os golpes afunilaram o exército invasor até a torre ao centro. O último sítio se formou. No interior, um único general e um homem que não fazia jus a própria coroa.

O príncipe esperou. Todo ambiente em chamas lhe era irrelevante. Pouco importou ter sido enviado e cuidado por aquelas terras e braços. Antes um prisioneiro real, agora o encubido por terminar uma era. Seria o autor de outra. Apenas aquela torre existia, o único ponto no vazio. Atrás dela, nada. Atrás dele, tudo.

O general, como se desafiasse o próprio tempo, apoiou o pé na janela aberta. Tinha o peito enchido e os punhos cerrados. Levou um ao céu. Por um último instante, um definhante reino pulsou de vida. Sua fulva cabelereira e barba agora pareciam ruivas ante o rubor tecido pelo inimigo. Inspirou como um gigante e expirou como um dragão. Seus urros mergulharam como pedra.

O príncipe conhecia a língua e o significado daquelas palavras. Era o chamado para um duelo. Não fez questão de se explicar. Apenas indicou que não o seguissem. As portas se fecharam atrás do homem.

O general descia as escadas. Certificou-se apenas do rato estar com o pedaço de metal que tanto ufanou. Enfim, os degraus lhe levaram a seu antigo pupilo. Sorriu para ele e o mesmo retribuiu. Ficaram à mesma altura e aproveitaram os últimos instantes de alguma solidariedade.

O pupilo pensou em falar. Abrir mão das suas devidas posições e comemorar tempos idos, mas se conteve. Devia algo a mais ao homem que estava à sua frente. O mestre sabia. Fechou a carranca e declarou:

-Uma última ordem, rapaz!

O jovem escutou.

-Não esqueça de trocar o óleo da lamparina antes de dormir- Um outro sorriso se abriu e sua espada foi desembainhada.

O rapaz o imitou e se chocaram.

Os alto escalão tinham os ouvidos à porta e as mãos aos cabos. O general era um açougueiro de lendas e não queriam servir o glorioso segundo filho em um prato ao seu rei. Entretanto, não entendiam a própria audição. O que deveria ser o titilar de lâminas soava como o encontro de canecas cheias. Os agressivos urros, eram como risadas de velhos amigos. Os passos eram como dança e uma estranha música inaudível era sentida. Não se contiveram. Empurraram a pesada porta. O que viram? O silêncio. O abraço de um homem e seu filho. O homem sorria, o filho não tinha lágrimas, apenas mais sangue.

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