Clichê Insônia
-Eu não contei quantas vezes amassei aquele lençol ao me virar e revirar na cama. Me vinha àquela clichê composição de várias mãos me puxando para baixo, ao som de um coral ensurdecedor que você viu em tantos filmes. Estas mãos não me viam como um igual, pelo contrário, eu era o vilão. Ou passei a carregar esse fardo quando decidi por sê-lo.
-O que faz de você um vilão?
-É o que faz qualquer um: a crença em sua moral deturpada ao ponto de cogitar o auto sacrifício em realizá-la.
-Acho que você está pulando etapas. O ponto chave de haver um vilão é a implicância de um herói, ou pelo menos de algo que seja bom. Como acreditar que ter convicções lhe converta em tal arquétipo?
-Isso é mais sobre o teor delas. São destrutivas, saca? Eu adoraria recorrer ao recurso de ter nascido no momento errado, mas ele não existe quando pelo menos no chão que piso nunca houve lugar para mim.
-O que há com esse chão?
-Ele é para pessoas que olham o problema e não o vêem. Em suma: corruptos. Existem leis claras e no caso de não haver, há um ideal de ordem em um subconsciente compartilhado. Na verdade, não sei mais se existe. Em todo caso, vejo apenas o líquido leviatã pairando nestes corpos lúgrebes em consciência.
-Este é seu equívoco! Como julgar em tom de superioridade que haja tal terra amaldiçoada! Está se embebedando de tanta desconfiança e loucura!
-O que acha que é um vilão?
-Não é você, contudo, carrego a certeza de que está errado. Digo...isso lhe tornaria um vilão? Ou...ou melhor: o que faria na condição de vilão?
-Vou crescer. Me aprimorar. É o que me resta. Quero um herdeiro, alguém desgarrado deste solo que me olhe e busque o mesmo ideal. No fim é uma corrida entre este querer e o herói, que quando me encarar, virá em seu todo. Se eu vencer, meu ideal será herdado. Se for ele, serei uma página esquecida.
-Você é egocêntrico. Como pode associar tantas circunstâncias românticas à uma noite mal dormida!?
-Saí da cama, mas não acordei dela.
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