Caçada Vermelha
Eu estava deitado na relva, inerte e alfinetado pelos raios de sol em contraste à brisa das montanhas, mais gélidas, por essa época. Um pigarro irrompe minha atenção. Era um homem, assim como eu. Um pouco mais baixo, na verdade. E um tanto mais farto em seu centro de gravidade. Trajava um grande avental bem marcado pela labuta e um olhar inquietante.
Fui obrigado a abandonar minha inércia, levantei desajeitado, mantive uma distância entre o seguro e o cordial. Assim indaguei:
-Por gentileza ?
Ele me olhou dos pés à nuca, coçou o queixo e propôs:
-Você é um caçador, certo ?
-Não estou associado a uma guilda, nem tenho certificação, mas sim. Sei caçar.
Ele se calou por um momento, tinha o punho próximo ao rosto. É do tipo que escolhe bem palavras, pensei. Mudou a postura e declarou:
-Tenho um trabalho que possa lhe interessar.
-Seria bem vindo...senhor..?
Só o assovio dos prados me responderam. Vi suas costas se distanciando e um aceno convidativo. O segui enquanto me alongava preguiçosamente.
A vila dona daqueles pastos era tão afavel quanto um seio materno. Pessoas pequenas, retalhos que cobriam até as unhas, construções respectivas ao tamanho e parcimônia. Todos banhados por bebidas quentes e senso de cumplicidade. Apesar disso, pelas palavras de meu amigo frade, essa e outras desta região, nada mais são que resquícios de um antigo e imponente império consumido pela própria ébia. Não duvido que sejam, mas não o vejo nessas pessoas, apenas comemorações com nomes exóticos.
-Como se chama essa que estão organizando ?-. Perguntei.
-Derrama D’ella-. Disse o, agora ferreiro, mexendo em seus amontoados. Pensei em tirar mais alguma informação, ainda que o bom senso tenha me impedido. Para a minha sorte, uma outra figura, não maior que seu calado marido, estava encostada à porta descascando cereais.
-Não estranhe, garoto. Ele é pão duro até nas palavras. Meu pedido de casamento tardou quase um ano até que falasse com todas as letras-. Descascou com mais força e logo suavizou o movimento- Esse é um dos nossos festivais mais bonitos, comemoramos a cada dez anos. Tem bastante comida, em especial um javali avermelhado. Este é de matar qualquer um. Bem, seria, se o cozinheiro não estivesse estragado a carne.
-Chega.-Impôs, o ferreiro. Me jogou um objeto. Apanhei no ar. Era uma adaga, como eu tinha pedido. Melhor ornamentada, no caso.
-Essa é suficiente ?
-Sim, com o equipamento que já tenho, dá pra caçar um animal grande. Seria o Javali que sua esposa comentou ?
Ele assentiu com a cabeça e complementou:
-A comemoração será daqui a quatro sóis. Você tem dois.- Antes que prosseguisse, caso prosseguisse, fitou a porta. Me virei e lá estava outro vilado, um pouco melhor trajado e grisalho. Foi cumprimentado como “prefeito”, pelo ferreiro. Este terceiro não tardou em apertar minha mão:
-Este é o caçador que conseguiu, pois não, Dautur ?- Em uma postura recolhida, já estava apresentado. O prefeito respirou fundo e deduziu sem muita dificuldade :
-Imagino que nosso ferreiro de poucas palavras não tenha lhe dado muitos detalhes, pois não ?- Sou um apreciador de silêncio, mas devo convir que neste momento, algumas migalhas faziam falta. E este terceiro tratou de recolhê-las: contou-me de uma floresta próxima, onde havia alguns da espécie requisitada, também falou da recompensa. Esta era um valor farto, mas julguei justo tratando-se de um fator emergencial e que não teria de partilhá-la com uma guilda. Um pouco arriscado considerando minha falta de currículo. Não dei para trás e comecei meus preparativos. Daria início, após a meiuca do dia.
A mochila me fazia pender um pouco. São minhas ervas, panela e equipamento para montar duas noites. E claro, a besta que herdei. Saí da taverna. O dono estava muito ocupado, organizando garrafas e não deu minha falta. Meu último contato foi o Dautur, encostado numa parede, tinha um cachimbo entre os dentes e um olhar calado que me seguiu até deixar a vila.
Em retorno aos prados, montei algumas projeções. Bastava cruzar os mansos, sempre à leste, haveria um riacho em início de estiagem, após ele, alguns pinheiros de carvalho escuro dariam forma a uma densa, porém pouco expressiva, floresta. “Eles gostam de clareiras”.
Não me recordo de percalços. Nos mansos, haviam poucos em serviço, e estes, recorriam a descansos ou jogos de apostas. Eram proporcionais à vila. Mais além, o cheiro de trigo dava lugar ao de relvas. O som do vento passou a se misturar com o de agua. Quando a alcancei, não passava de meus tornozelos, inofensiva e gélida. Montei um pequeno acampamento na margem oposta ao bosque. Logo o anoiteceria.
Aproveitei a oportunidade. O pôr e o nascer do sol são ótimos momentos para se analisar uma fauna. Afinal, os diurnos se movem ao descanso, e os noturnos à atividade, ou vice-versa. Optei, em primeiro plano, por circundar a boscagem. Era uma mata densa, com alguns feixes entre os arvoredos, confirmando minha teoria sobre as clareiras. As criaturas eram típicas da região, com sapos-cogumelo, mais próximos do riacho; pássaros de pequeno porte e roedores dos que costumam infestar armazéns. Alguns movimentos de maior impacto davam ar da graça, nas profundezas daquele cenário. Acabou que a noite tomou minha coragem em adentrar.
De volta ao acampamento, dispus alguns galhos secos que recolhi no caminho. O chão era parcialmente úmido, dava para acender uma fogueira, só teria de reabastecer na calada. Esta foi tomando forma e desafiando minha disposição. No outro lado do arroio, cores tomavam formas tímidas. Vários caçadores e viajantes davam seus nomes para aquilo e os feiticeiros, davam os corretos.
A coloração do céu se confundiu com o acinzentado. Um anúncio. Consumi minhas provisões com cautela- uma compensação pela vigília-. Certifiquei-me da adaga. Com algum esforço, a besta também. Ainda era cedo, mas “os bons caçadores, são aqueles que, com a natureza, comercializam seus ensejos”. Não me recordo do antigo dono desta balestra errar seus provérbios. E não arriscaria de novo.
Me confundi com a paisagem. Lá dentro, as coberturas de folhas formariam uma grande cúpula sustentadas por hastes escuras, não fossem os espaços onde a relva, preenchendo o chão, se banhasse com o sol . Sim, as clareiras. A fauna se diversificava em seus detalhes mais sutis, como insetos e anfíbios. Enquanto os mesmos roedores, espiralavam-se pelas árvores. Claro, erro meu.
Me esgueirava à lacuna mais próxima, quando ele soou. Um guincho. Ecoava por entre as
paredes naturais daquele arvoredo, interrompido por outros de mesmo timbre. Minha única pista. Não tardei.
Antes que eles se cessassem, vi a execução. Três daqueles porcos avermelhados ceifavam, à custa, um lobo cinzento. Entre eles, algo que parecia ter sido uma lebre. Dada a distância, minha presença era irrelevante. Aproveitei a cena. Eram fortes em cada movimento. Conhecia bem suas estruturas. Estes suínos são coordenados. E de fato, era como um triângulo inflexível. O canino, mesmo solitário, conquistava suas feridas em troca de outras. Não tomei partidos; 1/4 daquilo era minha recompensa e os demais, motivos para não ceder à pressa.
Estava posicionando a besta quando o elo frágil tombou. Ainda que vivo, não o suficiente. Os demais não solenizaram. Não há isso por aqui. Arrastaram o cinzento em indiferença, completando qual seja o seu papel neste mundo. Me recolhi.
Na minha margem, organizava as ervas- Cinco frascos. Dois medicinais. Um afrodisíaco.Um venenoso e outro com o antídoto-. Já tive repertórios mais fartos, principalmente quando o farmacêutico mais próximo não distava léguas e a vegetação não predominava gramíneas. Lidaria com o que tinha. Na verdade, nem precisaria.
O javali vermelho. Solitário em sua margem. Como uma piada de mau gosto. Me fitava, por pouco não lendo ao que estou sendo pago. Desconheço o equívoco que nos colocou cara a cara. E Prefiro não saber, pois o amaldiçoei. Antes que se assimilasse, um agiu.
Seu salto, pesado como um grilhão, cobriu nossa distância apenas por força bruta. Me joguei ao riacho, levantei e só tomei norte quando percebi àquela balestra quebrada. O animal não pousou da melhor maneira. “A adaga em meu cinto”. Fui breve. Antes que se levantasse, afundei a lâmina cinco vezes em seu corpo. Me distanciei, não havia ar, ou disposição, apenas caí sentado e observei.
Seu fim tardou o que deveria. Das vezes que se levantou e tentou retornar ao bosque, contei quatro. Tropeçou em todas. Enquanto seus piares, intercalavam-se em tempo de haver uma resposta. Não há isso por aqui. E não houve.
O recolhi em uma rede. Era pesado, o arrastaria. Por sorte, nosso encontro antecipado compensaria o esforço de levá-lo. A lástima, estava naquela besta, ou o que restou dela. Não é surpresa uma madeira velha ceder ao peso de um destes. Me atenho à memória do meu tutor. Que sirva de última lição, pensei.
Aquelas horas da vinda, se estenderam pelo seu dobro. Dei os devidos descansos, ainda que contasse com a empatia de alguns lavradores. Eles não vieram. Meus únicos acólitos eram a fadiga, e um lucrativo fardo.
O cheiro do trigo já me era lugar comum a algum tempo. Os cultivos se alaranjavam junto ao sol, enquanto a vila ganhava nitidez. Mais do que eu gostaria de ter visto. Não era a mesma.
Falo de ruínas. Do chão às pontas. Tomada por uma névoa empoeirada, marcando a proximidade dos eventos. Em sua saída, confirmei meu temor. Duas filas. A que saía: homens metálicos em grandes cavalos, tomados por exaustão e descaso. A que entrava: encapuzados de mãos juntas, erguendo cruzes e símbolos. No caso, a segunda me era familiar.
Quando alcancei, ainda não se prostravam. Indaguei sobre um frade de nome Eltor. Não era conhecido. Tentei tirar mais algumas informações. Fui ignorado por muitos. Dos poucos que falavam, apenas lamúrias pelas almas perdidas. Insisti em vão.
Desesperançoso, recostei no que havia sido a casa de um calado ferreiro. Honrei seu silêncio.
Comentários
Postar um comentário